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segunda-feira, 28 de março de 2011

O choque de Feynman

Ilustração da máquina térmica de Feynman

Não, não é nenhum novo conceito eletromagnético; aliás, está longe de ser novidade de qualquer forma. O relato feito por Richard Feynman, no qual o conceituado físico revela seu choque ao conhecer o "ensino" de ciências no Brasil, é fonte clássica de citações quando o assunto é educação no país. É verdade que já fazem décadas desde a visita do professor, mas ainda temos muitas marcas do passado.

Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice”, eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando “Observe a água”.


O ensino de ciências


Há vários outros ótimos trechos, mas o parágrafo acima ilustra perfeitamente o ponto a que quero chegar nesta discussão. O que é conhecimento? O que é inteligência? O que faz de Einstein, Newton e outros serem considerados inteligentes, se é que não forem menos inteligentes do que o "povão"? Ainda não se sabe ao certo, mas uma coisa é clara: nem Einstein nem Newton poderiam ser emulados por um computador.

A comparação de Feynman é incrivelmente apropriada; por mais poderosos, computadores não são capazes de produzir conhecimento. O que as máquinas fazem são responder a comandos muito bem definidos, processar dados e gerar uma informação no output. Se você instruir um programa a imprimir a tabela ASCII, é exatamente isso o que ele deve fazer. Quem define o que fazer com a informação é o homem.

Tabela ASCII com os principais valores

E com a informação teorizamos, tiramos conclusões, mas o mais importante é que produzimos e disseminamos conhecimento. Percebem o ciclo vicioso? O sujeito estuda incessantemente, passa em uma boa universidade, tira seu diploma em Física e vai formando mais professores. Professores, não pesquisadores, não cientistas; máquinas que geram informação e levam outras máquinas a produzir informações. Informações que logo viram dados novamente, inutilizados pela vida real.

Isso me lembra do conceito de metaprogramação, mas não vem ao caso agora. Estudar por estudar é muito bonito, mas uma coisa é pesquisar, realizar experimentos e criar modelos para um fenômeno desconhecido à maioria das pessoas, outra completamente diferente é ir repassando output como um programa de computador. Complexo, mas não deixa de ser algo sem vida própria.

Que programas são esses? Basicamente chatterbots, que utilizam conceitos de redes neurais e são muito estudados como aplicação da Inteligência Artificial. Ei, espere um momento. Se hoje já conseguimos conceber de forma minimamente satisfatória algoritmos capazes de "aprender", processar dados e repassar informação adequada, por que não deixar essa etapa ao computador?

Feynman menciona no texto um certo colega professor que teria recebido educação no Brasil, mas a verdade é que este acabou aprendendo tudo sozinho pelos livro. E mesmo assim tornou-se um bom físico! Então o sistema seguinte parece bem razoável: o robô informa, o humano forma. O programador poderia definir junto com professores tópicos prontos a serem acessados por um comando acionado pelo usuário. Já vi um chatterbot "com rosto" e que falava sua resposta, aliás.

E se o estudante ficar em dúvida e o tutor virtual for incapaz de responder à pergunta (como no caso de Feynman), para isso servem os materiais de ensino propriamente ditos, que não precisarão se preocupar em detalhes muito técnicos e poderão focar-se na essência do assunto. Evidentemente o programa seria supervisionado de tempos em tempos por usuários intermediários, especialistas.

Utópico? Talvez, mas o fato é que ficar o dia inteiro programando Fibonacci, formulários e janelinhas bonitas não leva a lugar algum. Também é verdade que esse sistema de aprendizado, infelizmente vivenciado hoje em dia — no mundo inteiro, mas no Brasil podemos observar corriqueiramente —, mostra-se ineficaz, inútil e desestimulante. Um desaprendizado, basicamente.

Conclusão:


Enfim, quis fazer uma reflexão geral sobre o ensino de ciências, conhecimento e aprendizagem assistida por computador. Parece muita coisa de uma vez, mas é assim que a ciência de verdade funciona. Não se perde tempo bitolado em uma fórmula/algoritmo certinho e resolvendo problemas teóricos e pequenos, mas concentra-se na investigação do que realmente interessa utilizando as ferramentas convenientes.

Por exemplo, aposto que muitos devem ter achado que eu faria um resumo do texto de Feynman do início ao fim. Tudo bem, é uma regra geral entregar o esperado pelo leitor, mas a questão é que vocês podem muito bem lê-lo na íntegra e tirar suas próprias conclusões ao invés de depender de mim para mastigar o conteúdo. Não é esse tipo de coisa que estou querendo propor neste blog, e justamente o que o físico denuncia.

Foto de um laboratório
Agora mãos à obra.

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