Coisas que deveriam ser revistas
Números complexos
Está aí um tópico muito bom para ilustrar meu ponto de vista. Qual é o papel didático dos números complexos para a formação do jovem? Quem conseguir responder ganha uma salva de palmas, porque eu ainda não descobri. E nem venha com o papo de que um estudante de física ou engenharia vai precisar desses conceitos, porque ele pode muito bem aprender na universidade.
Sem contar que até algum tempo atrás, aprendia-se noções de cálculo diferencial e integral no ensino médio e sua exclusão não prejudicou em nada o ensino superior, então não é desculpa. Na prática o aluno é forçado a "aprender" conceitos completamente afastados de seu mundo e ninguém sabe justificar por que. É algo como o seguinte:
Joãozinho: "Professora, eu entendi as definições, provei todas as propriedades, sei fazer a representação de qualquer número complexo na forma algébrica e trigonométrica e gabaritei a prova. Agora a senhora pode me dizer para que serve tudo isso?"
Professora: "Muito bom, tenho certeza que se sairá bem no vestibular."
Ou:
Professora: "Muito bom, agora mantenha essa curiosidade caso for fazer um curso de Exatas. Confie em mim, você vai saber quando a hora chegar."
Mas eu não quero saber quando — e se — a hora chegar, eu quero saber agora!
Trigonometria
Claro que eu defendo com todos os dentes a exploração da trigonometria no ensino médio, por ser uma área extremamente útil em problemas, mas há sim um certo exagero. Não é realista achar que um estudante de ensino médio comum vai precisar resolver complexas equações trigonométricas em algum momento da vida.
Isso é diferente em casos de competições matemáticas, mas não é porque uns vão se aprofundar mais no assunto que todos precisam fazê-lo também. É ridículo precisar ver as fórmulas da soma, subtração, arco duplo, triplo e metade por nada. "Ah, mas não é um curso de matemática aplicada", claro, mas aí repito a pergunta: qual é o papel desses assuntos na formação do estudante? Novamente retórica, pois a resposta é óbvia.
Álgebra linear
Praticamente a mesma coisa que os números complexos, mas aqui pelo menos pode-se encontrar aplicações interessantes para abordar em aula, como computação gráfica e programação linear. Só que geralmente nunca sobra tempo devido à carga teórica, e mais:
a) Muitas demonstrações exigem conceitos avançados, de modo que as propriedades e fórmulas são apenas jogadas ao estudante, que precisa decorar sem questionamento;
b) E justamente por causa de a), toda abordagem de álgebra linear no ensino médio está fadada a ser superficial e distante;
c) Consome carga horária que poderia ser melhor aproveitada em outros assuntos.
Coisas que deveriam estar ali
Teoria dos números
A teoria dos números é uma excelente introdução a provas e problemas bastante interessantes e sofisticados, ou seja, uma introdução à "matemática de verdade". Ela também explica propriedades anteriormente apresentadas (critérios de divisibilidade, por exemplo) e retoma conceitos elementares para resolver diversos problemas.
Sem dúvidas, se o ensino de matemática se propõe a preparar o estudante para resolver problemas, a teoria dos números não deveria deixar de ser incluída.
Lógica
Embora o estudo da lógica não necessariamente torne o estudante apto a resolver qualquer problema, com certeza propõe metodologias e aproximações que ajudam na análise e desenvolvem o raciocínio. Além disso, abre espaço para discutir a lógica dos computadores — afinal, problemas computacionais estão cada vez mais evidentes — e a lógica proposicional auxilia na compreensão da linguagem matemática formal.
Provas matemáticas
O estudo de técnicas de provas matemáticas deveria ter início o mais breve possível, tanto para desenvolver o raciocínio lógico e crítico do aluno como estimular uma maior proximidade com a matemática. Mesmo que os livros didáticos incluam demonstrações dos principais teoremas e propriedades, ainda fica aquela lacuna desconfortável: como eles chegaram a essa conclusão? Por que fizeram tal coisa? É a única maneira?
Creio que este tópico seria melhor aproveitado se fosse constantemente abordado, independente do assunto, para que o aluno compreenda a lógica por trás da matemática.

5 comentários:
Acho que todos os conteudos de matemática propostos no Ensino Médio mesmo que não tenham uma aplicação pratica na vida dos estudantes devem continuar sendo vistos, já que os mesmos estimulam a mente em sí e aprofundam o aluno nas ciências exatas,e acho uma pena terem excluido limites, derivadas e integral do programa já que estas materias estão presentes em inumeras situações do dia a dia e apresentam resoluções mais elegantes e menos desgastantes para inúmeros problemas, e sobre os números complexos quem nunca se perguntou qual é a raiz de um número negativo?
Opa, obrigado pela participação. Olha, em um mundo ideal eu concordo plenamente, o problema é que na prática o currículo atual mais atrapalha do que ajuda. O que se vê são conteúdos sendo passados superficialmente porque simplesmente não há tempo nem condições (no caso de álgebra linear por exemplo), então mesmo que um determinado assunto seja interessante, o aluno encara aquilo como algo alienígena e não consegue se empenhar seriamente.
então Gavrilo, o probelma não está no que é ensinado e sim na banalização do ensino por parte dos estudantes.É claro que devemos passar o conteudo de forma mais aplicada, mas nem tudo na matemática tem uma utilidade no dia a dia e nem nem por isso deixa de ser importante. Se pensarmos dessa forma, devemos substituir as aulas de sistema linear por "como ser um bom empreendedor" e também as aulas de números complexos por " como planejas suas finanças".
então Gavrilo, o probelma não está no que é ensinado e sim na banalização do ensino por parte dos estudantes.É claro que devemos passar o conteudo de forma mais aplicada, mas nem tudo na matemática tem uma utilidade no dia a dia e nem nem por isso deixa de ser importante. Se pensarmos dessa forma, devemos substituir as aulas de sistema linear por "como ser um bom empreendedor" e também as aulas de números complexos por " como planejas suas finanças".
Obrigado pela contribuição à discussão, rodrigo. Talvez eu seja muito enfático no meu ponto de vista sobre o ensino de certos conteúdos e isso acaba passando a impressão de que eu sou a favor de aulas práticas, voltadas à aplicação direta do conhecimento, mas não é o que defendo. Conforme escrevi em outro post: "Não é questão de algo ser mais ou menos útil, mas saber utilizar o currículo de forma a privilegiar o mais essencial e discuti-lo de forma adequada, que agregue algo de significativo". Minha opinião é que, da forma atual, o ensino de conteúdos como números complexos dificilmente agrega alguma coisa (o que pode ser mudado, claro).
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