Pré-requisitos
Você não precisa ter lido o post anterior, mas ele oferece um aprofundamento maior — até porque muitos dos cálculos iniciais já foram desenvolvidos nele. De qualquer forma, a questão pode ser resolvida com os conhecimentos básicos de cinemática e do conceito de conservação de energia.
A questão
Dois pequenos orifícios de áreas iguais são feitos, um acima do outro, em uma garrafa PET cheia de água, como pode ser observado na figura 2. Sabe-se que a distância entre o orifício superior e a superfície da água é h, e que a distância entre os orifícios é D. Estabelecendo o sistema de coordenadas Oxy no furo inferior, determine as coordenadas (\(x_e, y_e)\) do local de intersecção entre os dois fluxos de água. Despreze todos os efeitos dissipativos e de turbulência da água. Considere também que o fluxo de água é tão lento que a altura h não varia durante o tempo de observação.
Resolução
Primeiro vamos estabelecer algumas variáveis:
\(x_s, y_s\) - Distância horizontal e vertical, respectivamente, percorrida pelo jato do orifício superior.
\(x_i, y_i\) - Distância horizontal e vertical, respectivamente, percorrida pelo jato do orifício inferior.
\(v_s, v_i\) - Velocidade de lançamento do jato superior e inferior, respectivamente.
\(t_s, t_i\) - Tempo de queda do jato superior e inferior, respectivamente.
Note que o ponto de intersecção se dá quando
$$ \begin{align*}
x_e = x_s = x_i \\
y_e = y_s = y_i
\end{align*} $$
Então seria bom ter um modo de isolar \(x_e\) na segunda igualdade entre \(y_s\) e \(y_i\). Primeiro, como é um lançamento horizontal, valem as seguintes equações:
$$ \begin{align*}
x_s &= v_s t_s \\
y_s &= D - \frac{g {t_s}^2}{2}
\end{align*} $$
Podemos escrever o tempo em função da distância, de modo que a expressão final para a distância vertical fica, para ambos os orifícios:
$$ \begin{align*}
y_s &= D - \frac{g}{2} { \left( \frac{x_s}{v_s} \right)}^2 \\
y_i &= - \frac{g}{2} { \left( \frac{x_i}{v_i} \right)}^2
\end{align*} $$
Basta substituir as distâncias horizontais por \(x_e\) e você encontrará... um pequeno caos matemático. Tire as crianças da sala, porque o negócio pode ficar feio se não tomar cuidado com as contas:
$$ \begin{align*}
D - \frac{g}{2} { \left( \frac{x_e}{v_s} \right)}^2 &= - \frac{g}{2} { \left( \frac{x_e}{v_i} \right)}^2 \\
\frac{g}{2} { \left( \frac{x_e}{v_s} \right)}^2 - \frac{g}{2} { \left( \frac{x_e}{v_i} \right)}^2 &= D \\
\frac{g {x_e}^2}{2} \left( \frac{1}{{v_s}^2} - \frac{1}{{v_i}^2} \right) &= D \\
\frac{g {x_e}^2}{2} \left( \frac{ {v_i}^2 - {v_s}^2 }{ {v_i}^2 {v_s}^2 } \right) &= D \\
{x_e}^2 &= \frac{2D}{g} \frac{{v_i}^2 {v_s}^2}{ {v_i}^2 - {v_s}^2 } \\
x_e &= v_i v_s \sqrt{ \frac{2D}{g} \frac{1}{ {v_i}^2 - {v_s}^2 } }
\end{align*} $$
Se você pensa que a expressão acima ficou feia, imagine se tivéssemos substituído os valores das velocidades antes! Por isso vamos fazê-lo agora. Pelo princípio da conservação de energia, a energia potencial gravitacional (tomando como nível de referência a superfície de água) transforma-se em energia cinética, daí:
$$ \begin{align*}
v_s &= \sqrt{2gh} \\
v_i &= \sqrt{2g(h + D)}
\end{align*} $$
Substitua na expressão de \(x_e\) para encontrar
$$ \mathbf{x_e = 2 \sqrt{h(h + D)}} $$
Calma campeão, quase lá. Tendo o valor da distância horizontal, enfim podemos calcular
$$ \mathbf{y_e = -h} $$
Análise
Este é um ótimo exemplo de aplicação de conceitos simples — lançamento horizontal e conservação de energia —, mas que podem modelar situações interessantes e complexas. A ideia básica não é difícil, apesar de exigir algum insight inicial, mas as coisas saem fora do controle facilmente. Por isso, é bom ter estes tópicos em mente:
Compreensão: Antes de qualquer coisa, é muito importante identificar os fenômenos envolvidos na situação e quais conceitos serão úteis. Inicialmente pode ser tentador pensar em hidrostática, mas trata-se de um fenômeno que diz respeito ao movimento do jato apenas. Isso inclusive leva ao erro comum de imaginar que o jato inferior atinja uma distância maior, o que não é necessariamente verdade.
Organização: Registre as variáveis logo no topo, verifique seus passos, arrume as expressões e equações da maneira que sejam mais simples. Pode parecer besteira, mas poupa muito tempo a longo prazo e evita erros bobos por causa de nomes errados, sinais invertidos etc.
Planejamento: Tenha um plano inicial bem definido, em contraste à atitude comum de "ir calculando qualquer coisa e improvisando no caminho". Você com certeza não vai querer perder tempo e sua saúde mental enfrentando milhares de infernos algébricos que não dão em nada.
Álgebra, maldita álgebra: Para não cair nas armadilhas, simplifique o que for possível e evite expandir as expressões a não ser que seja estritamente necessário. Planeje em avanço seus passos, como já foi dito. E, acima de tudo, espere até o último momento possível para começar a substituir os valores.


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